Em 30 segundos
- A demonstração de resultados conta um período e lê-se de cima para baixo, das receitas ao resultado líquido.
- Resultado bruto, resultado operacional e resultado líquido mostram em que degrau fica o dinheiro.
- O resultado operacional é a melhor linha para comparar negócios, porque não depende da dívida nem dos impostos.
- Como muitos gastos são fixos, uma pequena descida das vendas pode afundar o resultado: é a alavancagem operacional.
- Desconfie dos resultados ajustados e dos anos com rubricas extraordinárias; olhe para a tendência de cinco anos.
Introdução
No exercício encerrado a 31 de maio de 2025, a Nike faturou 46.309 milhões de dólares, quase 10% menos do que no ano anterior. Um mau ano, nada mais. Mas o resultado líquido caiu de 5.700 para 3.219 milhões: uma descida de 43,5%. Como é que uma quebra de vendas de 10% se transforma numa queda do resultado quatro vezes maior? A resposta está escrita, linha a linha, na demonstração de resultados.
Explicação
A demonstração de resultados (em inglês, income statement) é a demonstração financeira que conta um período: um trimestre ou um ano. Lê-se como uma cascata. No topo entram as receitas e, em cada degrau, subtrai-se um tipo de gasto, até chegar ao resultado líquido, que é o que fica para o acionista.
Imagine uma sapataria de bairro que vende 100.000 euros por ano. Os ténis custam-lhe 57.000 ao fornecedor: ficam 43.000 de resultado bruto. Paga renda, salários e publicidade, 35.000, e ficam 8.000 de resultado operacional. Soma o que o banco lhe paga pelas poupanças, subtrai os impostos e fica com cerca de 7.000 de resultado líquido. Agora imagine que, num ano, vende menos 10%. A renda e os salários continuam lá. É por isso que o resultado cai muito mais do que as vendas.
As linhas que tem de localizar, por esta ordem:
Receitas (vendas). Tudo o que foi faturado no período. Veja se crescem e de onde vêm.
Custo das vendas. O que custa fabricar ou comprar o que se vendeu. Receitas menos custo das vendas dá o resultado bruto.
Gastos operacionais. Marketing, administração, investigação e desenvolvimento. Subtraídos ao resultado bruto, dão o resultado operacional (EBIT): o que ganha o negócio em si.
Resultado financeiro. Juros pagos e recebidos. É aqui que se nota quanta dívida tem a empresa.
Imposto sobre o rendimento. Se o dividir pelo resultado antes de impostos, obtém a taxa efetiva.
Resultado líquido e resultado por ação (RPA). O RPA é o resultado líquido repartido pelas ações, e a base do PER.
Cada degrau dividido pelas receitas dá uma margem; estão explicadas em o que são as margens de uma empresa. E se ao resultado operacional somar as amortizações, obtém o EBITDA.
Fórmula
Resultado bruto = Receitas − Custo das vendas
Resultado operacional (EBIT) = Resultado bruto − Gastos operacionais
Resultado antes de impostos = Resultado operacional ± Resultado financeiro e outros resultados
Resultado líquido = Resultado antes de impostos − Imposto sobre o rendimento
RPA diluído = Resultado líquido / Número médio de ações diluídas
Exemplo
Vamos à Nike, exercício encerrado a 31 de maio de 2025, segundo o 10-K entregue à SEC (milhões de dólares):
Passo 1, receitas. 46.309 no exercício de 2025, contra 51.362 no exercício de 2024: menos 9,8%.
Passo 2, resultado bruto. Custo das vendas de 26.519 em 2025, pelo que o resultado bruto foi de 19.790, uma margem bruta de 42,7%. Em 2024 tinha sido de 44,6%. Vendeu menos e, além disso, com mais descontos.
Passo 3, gastos operacionais. 16.088 no total em 2025: 4.689 em marketing (a Nike chama-lhe «criação de procura») e 11.399 em gastos gerais. Repare num pormenor: o marketing tinha sido de 4.285 em 2024. Subiu enquanto as vendas caíam.
Passo 4, resultado operacional. 19.790 − 16.088 = 3.702 em 2025, uma margem operacional de 8,0%. A Nike não dá nome a esta linha; é preciso calculá-la por subtração.
Passo 5, resultado financeiro. Rendimentos líquidos de juros de 107 e outros rendimentos de 76 em 2025: resultado antes de impostos de 3.885.
Passo 6, impostos. 666 em 2025, uma taxa efetiva de 17,1%.
Passo 7, resultado líquido. 3.219 em 2025, uma margem líquida de 7,0%. O RPA diluído de 2025 foi de 2,16 dólares, contra 3,73 em 2024.
Aí está a cascata. As receitas caíram 9,8%; o resultado bruto, 13,5%, porque a margem encolheu; os gastos operacionais desceram apenas 2,9%. O resultado operacional de 2025 ficou 41% abaixo do de 2024. Isto é a alavancagem operacional, e funciona tão bem a subir como a descer.
A tabela abaixo compara a margem operacional de quatro empresas de setores muito diferentes. Antes de olhar: acha que a Nike tem mais margem operacional do que a Walmart?
Exemplo com dados reais
| Empresa | Ticker | Margem operacional |
|---|---|---|
| NIKE, Inc. | NKE | 8,2 % |
| Microsoft Corporation | MSFT | 46,8 % |
| The Coca-Cola Company | KO | 29,6 % |
| Walmart Inc. | WMT | 4,4 % |
Como interpretar
Como se interpreta
A margem operacional é a linha que melhor compara empresas, porque nem a dívida nem os impostos a distorcem. A fasquia do «bom» segue o guia setorial das fichas da Kaplio; «normal» e «fraco» são indicativos:
| Setor | Bom | Normal | Fraco |
|---|---|---|---|
| Software | Mais de 25% | De 15% a 25% | Menos de 15% |
| Consumo de marca (bebidas, artigos de desporto, higiene) | Mais de 15% | De 10% a 15% | Menos de 10% |
| Indústria | 12% ou mais | De 8% a 12% | Menos de 8% |
| Distribuição e supermercados | De 3% a 6% | De 2% a 3% | Menos de 2% |
Mais do que o nível de um ano, olhe para a tendência de cinco e compare o ritmo de cada linha com o das receitas. Se os gastos crescem mais depressa do que as vendas, a margem vai encolhendo por si só.
Armadilhas e limites
- O resultado «ajustado». Muitas empresas publicam um número sem os gastos de que não gostam. O número que conta é o do relatório anual.
- Rubricas extraordinárias. Reestruturações ou vendas de filiais mexem no resultado de um ano. A Nike registou 443 milhões de encargos de reestruturação no exercício de 2024.
- Receitas ainda por cobrar. A demonstração de resultados regista a venda quando se fatura. Compare o resultado com o fluxo de caixa operacional, como na lição sobre as demonstrações financeiras.
- RPA inflacionado por recompras. Se há menos ações, o RPA sobe mesmo que o resultado não cresça.
Caso real: a Nike, um ano depois
No exercício encerrado a 31 de maio de 2026, a Nike faturou 46.398 milhões, praticamente o mesmo, com uma margem bruta de 42,9% e um resultado líquido de 3.108 milhões. A cascata não se inverteu. Quando o resultado cai por causa da margem bruta e de gastos que não se cortam, a recuperação é lenta; se tivesse caído por um encargo extraordinário, teria desaparecido por si só.
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Perguntas frequentes
O que é a demonstração de resultados?
É a demonstração financeira que reúne as receitas e os gastos de uma empresa durante um período, normalmente um trimestre ou um ano, e o resultado que daí sai, lucro ou prejuízo. Organiza-se em cascata: vendas, custo das vendas, gastos operacionais, juros, impostos e, no fim, o resultado líquido.
Como interpretar a demonstração de resultados?
De cima para baixo, degrau a degrau. Veja se as receitas crescem, que margem fica depois do custo das vendas e quanto resta após os gastos operacionais. O resultado operacional diz se a atividade principal gera valor; o resultado líquido mostra o efeito final dos juros e dos impostos. Compare sempre vários anos.
Qual é a diferença entre o balanço e a demonstração de resultados?
O balanço é uma fotografia numa data concreta: o que a empresa tem, o que deve e o que sobra para os acionistas. A demonstração de resultados é o filme de um período: o que faturou, o que gastou e o que ganhou. Ligam-se porque o resultado não distribuído passa para o capital próprio do balanço.
Para que serve a demonstração de resultados?
Serve para saber se o negócio dá lucro e onde se perde o dinheiro pelo caminho. A partir dela calculam-se as margens bruta, operacional e líquida, o resultado por ação e o PER. Ao investidor mostra também a alavancagem operacional: quanto cai o resultado quando as vendas descem um pouco.