O que é a dívida líquida de uma empresa, como se calcula e que rácio dívida líquida/EBITDA é excessivo?

A dívida líquida é a dívida financeira de uma empresa, de curto e de longo prazo, menos a caixa e as aplicações financeiras de curto prazo. Mede o que ficaria a dever se usasse todo o dinheiro disponível para pagar. Se for negativa, a empresa tem caixa líquida. Compara-se com o EBITDA para saber quantos anos levaria a pagá-la.

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O que é a dívida líquida, como se calcula passo a passo com o balanço da Duke Energy e quantas vezes o EBITDA tolera cada setor segundo o guia da Kaplio.

Em 30 segundos

  • Dívida líquida = dívida financeira de curto e de longo prazo − caixa e aplicações financeiras de curto prazo.
  • Dividida pelo EBITDA, diz quantos anos de resultado operacional bruto seriam precisos para pagar a dívida toda.
  • A fasquia depende do setor: o guia da Kaplio tolera até 5,5 vezes nas elétricas, 3,5 nas telecomunicações e só 1,5 no software.
  • A Duke Energy fechou 2025 com 89.591 milhões de dólares de dívida líquida, 5,5 vezes o seu EBITDA: mesmo no limite do setor.
  • As locações, a caixa presa e as pensões podem mudar o número: leia as notas antes de confiar nele.

Introdução

A Alphabet fechou 2025 com 49.085 milhões de dólares de dívida. A Duke Energy, a grande elétrica do sudeste dos Estados Unidos, fechou 2025 com 87.212 milhões de dívida de longo prazo. As duas pedem dinheiro emprestado, mas a Alphabet tinha 126.843 milhões em caixa e aplicações de curto prazo no fecho de 2025: podia devolver tudo amanhã e ainda lhe sobravam 77.758 milhões. A Duke Energy não. A dívida menos o dinheiro disponível é a dívida líquida, o primeiro número a ter em conta antes de decidir se uma dívida é um problema.

Explicação

A dívida líquida é o que uma empresa continuaria a dever se usasse todo o dinheiro disponível para pagar aos credores. Parte-se da dívida financeira, a que paga juros: empréstimos bancários, obrigações e papel comercial, tanto a parte que vence este ano como a de mais tarde. E subtrai-se a caixa e as aplicações financeiras que se podem vender em poucos dias, como os bilhetes do Tesouro.

Pense num crédito à habitação. Deve 150.000 euros ao banco, mas tem 30.000 na conta à ordem e 20.000 num depósito a prazo que vence no mês que vem. A sua dívida bruta é de 150.000 euros; a líquida, de 100.000. O vizinho do lado deve o mesmo e não tem poupanças: em bruto, devem os dois o mesmo, mas ele anda muito mais apertado.

Quando a caixa supera a dívida, a dívida líquida fica negativa e fala-se de caixa líquida. É o que acontece à Alphabet. Pelo contrário, cada dólar de dívida líquida é um compromisso que a empresa terá de pagar, ou refinanciar, com o que o negócio gerar.

Dívida líquida face ao EBITDA
Mil milhões de dívida líquida são um fardo para uma oficina e trocos para uma elétrica. Por isso o número compara-se com o EBITDA, o resultado operacional antes de amortizações. O quociente responde a uma pergunta simples: quantos anos de resultado operacional bruto seriam precisos para pagar a dívida toda? É uma aproximação, porque o EBITDA não é caixa livre, mas serve para comparar empresas do mesmo setor.

O seu primo, o rácio dívida/capital próprio, diz como a empresa se financia; a dívida líquida/EBITDA, se consegue pagar o que deve. E a dívida líquida é uma peça do valor da empresa (EV).

Fórmula

Dívida líquida = Dívida financeira de curto prazo + Dívida financeira de longo prazo − Caixa e equivalentes − Aplicações financeiras de curto prazo
Dívida financeira = empréstimos bancários + obrigações + papel comercial (incluindo a parte que vence este ano)
Dívida líquida / EBITDA = Dívida líquida / (Resultado operacional + Amortizações)
Caixa líquida = dívida líquida negativa (mais caixa do que dívida)
Variante com locações = Dívida líquida + Passivos de locação

Exemplo

A tabela abaixo mostra a dívida líquida/EBITDA de quatro elétricas dos Estados Unidos com dados da Kaplio: Duke Energy, Southern Company, Dominion Energy e NextEra Energy. Leia-a assim: de quantos anos de EBITDA precisaria cada uma para pagar a sua dívida líquida. As elétricas vivem com múltiplos altos porque as receitas são reguladas e muito estáveis; por isso o guia do setor da Kaplio lhes permite mais do que a ninguém.

Passo a passo: Duke Energy a 31 de dezembro de 2025 (10-K de 2025, milhões de dólares)
1. Dívida de longo prazo: 80.108, mais 7.104 que vencem dentro de um ano. Total: 87.212.
2. Dívida de curto prazo (papel comercial e empréstimos a menos de um ano): 2.624.
3. Caixa: 245. Não há aplicações financeiras de curto prazo a subtrair.
4. Dívida líquida = 87.212 + 2.624 − 245 = 89.591.
5. EBITDA = resultado operacional de 8.626 + amortizações de 7.704 = 16.330.
6. Dívida líquida / EBITDA = 89.591 / 16.330 = 5,5 vezes.

A Duke Energy está mesmo em cima da fasquia do seu setor. Não é um alarme: investe muito em redes e centrais e paga-o com dívida, como todas. Mas já não tem margem.

Se as suas contas não baterem certo com a tabela, é normal: a tabela usa os últimos doze meses e a receita da ficha. Compare sempre com a mesma receita.

Agora é a sua vez. A Southern Company fechou 2025 com 65.649 milhões de dívida de longo prazo (com as locações financeiras), 6.220 milhões que venciam dentro de um ano, 722 milhões de dívida de curto prazo e 1.639 milhões de caixa. Em 2025, o resultado operacional foi de 7.285 milhões e as amortizações, de 6.030 milhões. Calcule a dívida líquida e o múltiplo sobre o EBITDA.

Antes de ver a solução: a Southern Company estará mais ou menos endividada do que a Duke Energy? Solução: dívida líquida de 70.952 milhões no fecho de 2025 e EBITDA de 13.315 milhões: 5,3 vezes. Um pouco mais folgada do que a Duke Energy e também dentro da fasquia das elétricas.

Exemplo com dados reais

Dívida líquida/EBITDA · Dados em
EmpresaTickerDívida líquida/EBITDA
Duke Energy CorporationDUK5,6
The Southern CompanySO5,2
Dominion Energy, Inc.D7,2
NextEra Energy, Inc.NEE6,1

Como interpretar

Como se interpreta
São estas as fasquias que aplica o guia do setor no Resumo de cada ficha da Kaplio. Abaixo delas, a dívida está dentro do intervalo; acima, não está.

SetorFasquia da Kaplio (dívida líquida/EBITDA)Porquê
Geral e indústriasaudável abaixo de 3×uma empresa industrial com dívida alta sofre muito numa recessão
Softwareaté 1,5× (restante tecnologia, até 2×)negócios que geram caixa e não precisam de dívida
Consumo defensivo e farmacêuticassaudável abaixo de 2,5×uma empresa defensiva com muita dívida perde a sua essência
Energiasaudável abaixo de 2×, com o EBITDA do valeo EBITDA afunda quando o petróleo cai
Telecomunicaçõesaté 3,5×a dívida do espetro e da fibra é estrutural
Elétricassaudável abaixo de 5,5×receitas reguladas e estáveis
REIT (imobiliárias cotadas)cumpre até 6× e excelente até 5×os imóveis financiam-se com dívida por natureza

A caixa líquida é a posição mais confortável, mas não a transforme num fetiche: uma elétrica sem dívida seria uma elétrica que não investe. Importa que o múltiplo encaixe na estabilidade do negócio e que não suba ano após ano. Nos bancos e nas seguradoras este rácio não se usa: a dívida é a sua matéria-prima.

Armadilhas e limites
1. As locações. Desde 2019, as empresas registam no balanço o que devem pelo arrendamento de lojas, aviões ou torres de telecomunicações, mas não o contam como dívida financeira, e muitas bases de dados também não o somam. A Duke Energy tinha 1.271 milhões de dólares em locações operacionais no fecho de 2025: com elas, o múltiplo passaria de 5,5 para 5,6 vezes, acima da fasquia. Nas cadeias de lojas, muito mais.

2. A caixa que não é livre. Subtrair a caixa toda pressupõe que a empresa a pode usar para pagar. Se estiver em filiais no estrangeiro, presa por um contrato ou for aquela de que o negócio precisa para funcionar no dia a dia, a dívida líquida real é maior.

3. As aplicações de longo prazo. A Apple é o melhor exemplo desta nuance. No fecho do exercício de 2025 (27 de setembro de 2025) tinha 98.657 milhões de dólares de dívida financeira e 54.697 milhões em caixa e aplicações de curto prazo: dívida líquida de 43.960 milhões. Mas, nessa data, guardava mais 77.723 milhões em títulos negociáveis de longo prazo, obrigações que consegue vender em dias. Se os contar, a Apple tem caixa líquida. As duas leituras são defensáveis; não as misture ao comparar. E, de qualquer forma, com um EBITDA de 144.748 milhões no exercício de 2025, a dívida líquida era 0,3 vezes o EBITDA.

4. A dívida que não se vê. Garantias prestadas a terceiros, faturas vendidas com recurso ou um plano de pensões com défice funcionam como dívida. Procure nas notas as palavras «guarantees», «off-balance sheet arrangements» e «pension».

5. Um EBITDA de pico. Numa empresa cíclica, 2 vezes o EBITDA de um ano recorde podem ser 6 vezes o de uma recessão. Por isso o guia da Kaplio pede que se leia a energia com o EBITDA do vale e avisa que o múltiplo da ficha é o atual, não o do ciclo.

Caso real: Alphabet, a caixa líquida como almofada
A 31 de dezembro de 2025, a Alphabet tinha 126.843 milhões de dólares em caixa e aplicações de curto prazo face a 49.085 milhões de dívida: uma caixa líquida de 77.758 milhões. Em 2025, o resultado operacional foi de 129.039 milhões. Porque é que uma empresa assim pede dinheiro emprestado? Emitir obrigações pode sair mais barato do que vender aplicações, e dá flexibilidade. Ao lado da Duke Energy, a dívida bruta conta histórias opostas mal se lhe subtrai a caixa. O passo seguinte é verificar se o resultado cobre os juros, na lição sobre a dívida e os encargos financeiros.

Pratique na Kaplio

Veja a dívida líquida da Dominion Energy

Perguntas frequentes

O que significa uma dívida líquida negativa?

Que a empresa tem mais caixa e aplicações financeiras de curto prazo do que dívida financeira: podia devolver tudo o que deve com o dinheiro que já tem. Chama-se caixa líquida. A Alphabet tinha 77.758 milhões de dólares de caixa líquida no fecho de 2025. É uma posição confortável, mas não garante por si só que o negócio seja bom.

Como se calcula a dívida líquida de uma empresa?

Somam-se a dívida financeira de longo prazo, a parte que vence dentro de um ano e a dívida de curto prazo, e subtraem-se a caixa e as aplicações financeiras de curto prazo. Na Duke Energy, no fecho de 2025: 87.212 + 2.624 − 245 = 89.591 milhões de dólares. Os números estão no balanço do relatório anual.

O que é a dívida líquida/EBITDA?

É a dívida líquida a dividir pelo EBITDA: os anos de resultado operacional bruto que seriam precisos para pagar a dívida toda. Um 2 significa dois anos. Não é um cálculo exato, porque o EBITDA não é caixa livre, mas permite comparar empresas do mesmo setor com tamanhos muito diferentes.

Qual é o rácio dívida líquida/EBITDA ideal?

Depende do setor. O guia da Kaplio considera saudável menos de 3 vezes em geral, até 1,5 no software, até 3,5 nas telecomunicações e menos de 5,5 nas elétricas, que têm receitas reguladas e estáveis. Mais do que o número exato, importa que encaixe na estabilidade do negócio e que não suba ano após ano.

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Fontes

Conteúdo educativo. Não é uma recomendação de investimento.