Em 30 segundos
- O ROIC divide o resultado operacional depois de impostos (NOPAT) pelo capital que acionistas e credores puseram no negócio.
- Ao contrário do ROE, não se inflaciona com dívida: mede a qualidade do negócio, não a forma como é financiado.
- Cria valor a empresa cujo ROIC supera o custo do capital (WACC), que nas grandes cotadas costuma ficar entre 7% e 10%.
- Um ROIC de 15% sustentado é bom em tecnologia e indústria; em consumo básico e farmacêuticas a fasquia está nos 12%.
- Desconfie de um ROIC disparado por um capital próprio encolhido à custa de recompras, como o da Mastercard em 2025.
Introdução
Em 1972, Warren Buffett e Charlie Munger compraram a See's Candies, uma fábrica de bombons da Califórnia, por 25 milhões de dólares. O negócio precisava de 8 milhões de capital para funcionar e ganhava pouco menos de 5 milhões antes de impostos. Buffett resumiu-o na carta aos acionistas de 2007: a See's ganhava 60% antes de impostos sobre o capital investido. Em 2007 já ganhava 82 milhões com apenas 40 milhões de capital.
Esse quociente, o que o negócio ganha face ao dinheiro que é preciso lá pôr para que funcione, é o ROIC. E é a razão por que uma fábrica de bombons que mal crescia em quilos acabou por pagar a compra de muitos outros negócios da Berkshire.
Explicação
O ROIC (rendibilidade do capital investido, do inglês return on invested capital) mede quanto resultado operacional, já descontados os impostos, uma empresa tira de cada euro que acionistas e bancos puseram a trabalhar no negócio. Um ROIC de 20% significa que cada 100 euros investidos em fábricas, armazéns, software ou existências devolvem 20 euros por ano.
Porque é que não basta o ROE? Porque o ROE só olha para o dinheiro dos acionistas e pode ser inflacionado com empréstimos. O ROIC põe no denominador a dívida e o capital próprio juntos, por isso pouco importa como a empresa se financia: mede a qualidade do negócio, não a da estrutura financeira. É por isso a métrica preferida de quem procura uma vantagem competitiva duradoura: um fosso a sério vê-se num ROIC alto que se aguenta durante anos, não num bom trimestre.
Pense em duas padarias que vendem o mesmo. Uma precisa de uma loja própria, três fornos e um mês de farinha em armazém; a outra arrenda o espaço, coze por turnos e recebe a pronto. Se ambas ganharem 50.000 euros por ano, a segunda é um negócio muito melhor: precisa de menos capital para ganhar o mesmo. O ROIC põe um número nessa diferença.
Como se calcula
São precisos dois valores. Em cima fica o NOPAT, o resultado operacional depois de impostos: pega-se no resultado operacional (EBIT) da demonstração de resultados e retiram-se os impostos à taxa efetiva da empresa (imposto sobre o rendimento a dividir pelo resultado antes de impostos). Usa-se o EBIT e não o resultado líquido para que os juros da dívida não contem: o ROIC quer medir o negócio, não a forma como é pago.
Em baixo fica o capital investido: o dinheiro que acionistas e credores têm metido no negócio, ou seja, capital próprio mais dívida total. É a definição mais comum e a que a Kaplio usa, sem subtrair a caixa nem retirar o goodwill. Há analistas que subtraem a caixa e retiram o goodwill; com essa variante, o ROIC sai mais alto. Se for possível, use a média do capital no início e no fim do ano; se o capital mudou pouco, o valor de fecho serve.
Há quase tantas versões do ROIC como analistas. Aswath Damodaran, professor na Universidade de Nova Iorque, dedicou em 2007 um trabalho inteiro às suas variantes e às formas de as maquilhar. O que importa é comparar empresas com a mesma receita e não misturar a sua com a de outra pessoa.
A fasquia: o custo do capital
Um ROIC de 9% não é bom nem mau até ser comparado com o que custa o dinheiro. Esse custo é o WACC (custo médio ponderado do capital): a rendibilidade que acionistas e credores, em conjunto, exigem. Numa grande empresa cotada costuma andar entre 7% e 10%. Se o ROIC superar o WACC, cada euro reinvestido cria valor. Se ficar abaixo, a empresa cresce a destruir valor: quanto mais investe, pior para o acionista.
Fórmula
ROIC = NOPAT / Capital investido
NOPAT = EBIT × (1 − taxa de imposto efetiva)
Taxa de imposto efetiva = Imposto sobre o rendimento / Resultado antes de impostos
Capital investido = Capital próprio + Dívida total
ROIC = NOPAT / (Capital próprio + Dívida total)
Exemplo
A tabela abaixo compara quatro empresas de pagamentos com os dados da Kaplio, quase todas com os últimos doze meses a 4 de outubro de 2026. Leia-a assim. A Mastercard tira cerca de 48 cêntimos de resultado operacional depois de impostos por ano por cada dólar de capital (48,1%). A Visa tira cerca de 34 cêntimos (34,2%). O PayPal fica-se pelos 14 cêntimos (14,5%). A American Express marca 8,3%, com o exercício de 2025. Atenção a esta última: a American Express empresta dinheiro aos titulares dos seus cartões, por isso funciona quase como um banco e o seu ROIC não se compara com o de uma rede de pagamentos pura.
Passo a passo: Visa, exercício fiscal de 2025 (encerrado a 30 de setembro de 2025, valores do relatório anual 10-K, em milhões de dólares):
1. Resultado operacional (EBIT): 23.994.
2. Taxa de imposto efetiva: 4.136 de impostos a dividir por 24.194 de resultado antes de impostos = 17,1%.
3. NOPAT: 23.994 × (1 − 0,171) = 19.892.
4. Capital investido: 37.909 de capital próprio + 25.171 de dívida total = 63.080.
5. Divide-se: 19.892 / 63.080 ≈ 31%.
A Kaplio mostra 28,4% para o exercício de 2025 porque normaliza o imposto sobre o resultado operacional; uma diferença de três pontos não muda a leitura: a Visa ganha muito mais do que os 15% de referência.
A tabela diz 34,2% e a ficha do exercício de 2025, 28,4%. Não é um erro: a tabela usa os últimos doze meses até outubro de 2026 e o passo a passo, o exercício encerrado em setembro de 2025. Quando comparar, use sempre o mesmo período para todas as empresas.
Com o valor da ficha, a Visa tira 28 cêntimos por ano por cada dólar investido. Uma empresa industrial que chegue aos 15% já é considerada boa. Porquê tanta diferença? Porque a Visa não empresta dinheiro nem fabrica nada: cobra uma comissão por cada pagamento que passa pela sua rede, e essa rede quase não precisa de capital novo para processar mais pagamentos.
Agora é a sua vez. Mastercard, contas de 2025 (10-K, milhões de dólares): EBIT de 18.897; impostos de 3.610 sobre um resultado antes de impostos de 18.578. Calcule a taxa de imposto efetiva e o NOPAT. Pista: o NOPAT anda pelos 15.200 milhões.
Antes de espreitar: o ROIC da Mastercard supera o da Visa? E isso faz dela um negócio muito melhor? A resposta está em «Armadilhas e limites».
Exemplo com dados reais
| Empresa | Ticker | ROIC |
|---|---|---|
| Visa Inc. | V | 34,2 % |
| Mastercard Incorporated | MA | 48,1 % |
| American Express Company | AXP | 8,3 % |
| PayPal Holdings, Inc. | PYPL | 14,5 % |
Como interpretar
Como se interpreta
Limiares orientativos, os mesmos que o Resumo de cada ficha da Kaplio usa. Nos setores cíclicos, olhe para a média de cinco anos, não para um exercício isolado.
| Setor | Fraco | Normal | Bom |
|---|---|---|---|
| Tecnologia e software | menos de 10% | 10-15% | 15% ou mais |
| Indústria | menos de 10% | 10-15% | 15% ou mais |
| Farmacêuticas | menos de 8% | 8-12% | 12% ou mais |
| Consumo básico (média de 5 anos) | menos de 8% | 8-12% | 12% ou mais |
| Energia (média de 5 anos) | menos de 6% | 6-10% | 10% ou mais |
Em bancos e seguradoras o ROIC não se aplica: a dívida é a sua matéria-prima, por isso olha-se para o ROE. As elétricas reguladas são um caso à parte: vivem com um ROIC de um dígito baixo porque o regulador lhes fixa a rendibilidade e o seu custo de capital também é baixo.
Armadilhas e limites
1. Há várias definições de capital investido. A Kaplio usa a mais comum: capital próprio mais dívida total. Há uma variante que calcula o capital investido sem caixa e sem goodwill, para ver só a qualidade do negócio; é a que dá os valores mais altos. Nenhuma está errada. Errado é comparar o ROIC de uma empresa calculado com uma receita com o de outra calculado com a receita contrária.
2. O denominador encolhido. Quem fez o exercício já sabe a resposta ao pré-teste: a Kaplio mostra para a Mastercard um ROIC de 48,9% em 2025, muito acima do da Visa. Repare no capital próprio da Mastercard no fecho de 2025: 7.737 milhões de dólares, um quinto do da rival. A Mastercard recompra ações há anos (11.727 milhões só em 2025), e cada recompra retira capital próprio. O negócio é excelente, mas parte da vantagem é contabilística: quando o capital investido encolhe, o ROIC sobe mesmo que o negócio não tenha mudado.
3. O goodwill. Uma empresa que cresce a comprar outras carrega no balanço o que pagou a mais (goodwill). Com ele, o ROIC desce; sem ele, sobe. Os dois valores dizem coisas diferentes: sem goodwill vê-se a qualidade do negócio; com ele, se a gestão pagou bem as suas aquisições.
4. Um ano não é nada. Um ROIC de 30% no melhor ano do ciclo não vale o mesmo que 18% sustentados durante dez anos.
5. A taxa de imposto de um ano atípico. Um reembolso ou um encargo fiscal extraordinário mexem no NOPAT sem que o negócio tenha mudado. Se a taxa efetiva se afastar muito do normal, use a taxa habitual.
Caso real: a Microsoft e a fatura da inteligência artificial
A Kaplio mostra para a Microsoft um ROIC de 21,6% no exercício de 2025 (encerrado a 30 de junho de 2025). Nos últimos doze meses, a 4 de outubro de 2026, o ROIC da Microsoft é de 20,6%. Já o resultado operacional subiu de 128.528 para 155.237 milhões de dólares entre os exercícios de 2025 e 2026, mais 21%. Porque não subiu também o ROIC? Porque o capital cresceu ao mesmo ritmo ou mais: o capital próprio passou de 343.479 para 442.387 milhões entre os fechos de junho de 2025 e de 2026, e a Microsoft está a aplicá-lo em centros de dados para inteligência artificial.
Isto não quer dizer que a Microsoft esteja a correr mal. Um ROIC de 20,6% continua acima da fasquia de 15% que a Kaplio exige a uma tecnológica. Quer dizer que a pergunta do investidor mudou: já não é se o negócio atual é bom, mas se cada dólar novo que investe vai render tanto como os anteriores. É o que Buffett, na carta de 2007, chama a diferença entre a See's e um negócio que precisa de muito capital para crescer: ambos podem ser bons investimentos, mas não são o mesmo investimento.
Para ver se o preço de uma empresa com ROIC alto se justifica, o passo seguinte é o valor da empresa (EV), que mede o que se paga por todo esse capital, dívida incluída.
Pratique na Kaplio
Perguntas frequentes
O que é o ROIC e para que serve?
O ROIC é a rendibilidade do capital investido: o resultado operacional depois de impostos a dividir pelo capital que acionistas e credores puseram na empresa. Serve para perceber se um negócio é mesmo bom, comparar empresas do mesmo setor e confirmar se a empresa cria valor quando reinveste, o que acontece quando o ROIC supera o custo do capital.
Como se calcula o ROIC de uma empresa?
Divide-se o NOPAT pelo capital investido. O NOPAT é o resultado operacional (EBIT) multiplicado por um menos a taxa de imposto efetiva. O capital investido é o capital próprio mais a dívida total, sem subtrair a caixa. Com esta definição, a Kaplio mostra para a Visa um ROIC de 28,4% no exercício de 2025.
Qual é a relação entre o ROIC e o WACC?
O ROIC mede o que rende o capital investido no negócio e o WACC, o que esse capital custa: a rendibilidade média que acionistas e credores exigem. É esta comparação que decide tudo: se o ROIC superar o WACC, cada euro reinvestido cria valor; se ficar abaixo, a empresa destrói valor mesmo que as vendas e os resultados cresçam.
Qual é a diferença entre o ROE e o ROIC?
O ROE divide o resultado líquido pelo capital próprio e mede só o que ganham os acionistas, por isso sobe quando a empresa se endivida. O ROIC junta capital próprio e dívida no denominador e usa o resultado operacional depois de impostos. Um ROE alto com um ROIC modesto costuma indicar que é a dívida a fazer o trabalho.
Qual é a diferença entre o ROIC e o ROCE?
O ROCE divide o resultado operacional antes de impostos pelo capital empregue, que costuma ser o ativo total menos o passivo corrente. O ROIC usa o resultado depois de impostos e, como capital, capital próprio mais dívida total. O ROCE é mais fácil de calcular; o ROIC compara-se melhor com o custo do capital porque já desconta os impostos.