O que é o rácio de cobertura de juros, como se calcula e como se interpreta?

O rácio de cobertura de juros mede quantas vezes o resultado operacional (EBIT) de uma empresa cobre os juros da sua dívida. Calcula-se dividindo o EBIT pelos gastos com juros. Uma cobertura de 5 vezes significa que o negócio ganha cinco vezes o que paga aos credores; abaixo de 1,5 vezes, qualquer tropeção compromete os pagamentos.

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O que mede a cobertura de juros (EBIT dividido pelos gastos com juros), que limiares a Kaplio usa, como pesam as taxas variáveis e os vencimentos, e porque é que uma cobertura aceitável não garante nada.

Em 30 segundos

  • A cobertura de juros divide o resultado operacional (EBIT) pelos gastos com juros: quantas vezes o negócio paga aos credores.
  • A Kaplio exige mais de 3 vezes a uma elétrica e mais de 5 a uma empresa sem métricas setoriais próprias; abaixo de 1,5 vezes há perigo.
  • Com as contas de 2025, a Duke, a Southern, a Dominion e a AEP ficam entre 2,2 e 2,6 vezes: o setor elétrico vive com coberturas apertadas.
  • Olhe também para as taxas variáveis e os vencimentos: os gastos com juros refletem as taxas do passado.
  • A PG&E cobria os juros 3,3 vezes em 2017 e faliu em 2019 por causa dos incêndios: a cobertura não vê os passivos fora da demonstração de resultados.

Introdução

Em 2017, a PG&E, a maior elétrica da Califórnia, teve 2.905 milhões de dólares de resultado operacional e pagou 888 milhões de juros: uma cobertura de 3,3 vezes, acima da fasquia que a ficha da Kaplio exige hoje a uma elétrica. A 29 de janeiro de 2019 declarou falência (capítulo 11). A cobertura de juros é um dos primeiros números a ver quando uma empresa tem dívida. Esta lição ensina a calculá-la, a lê-la e a não confiar só nela.

Explicação

O rácio de cobertura de juros responde a uma pergunta simples: quantas vezes ganha o negócio o que tem de pagar aos credores em cada ano? Calcula-se com duas linhas da demonstração de resultados: em cima, o resultado operacional ou EBIT (o que o negócio ganha antes de juros e impostos); em baixo, os gastos com juros. Se o resultado for 4, o negócio ganha quatro vezes o que paga de juros.

Pense numa família com um crédito à habitação. Se os juros do ano forem 6.000 euros e a família ganhar 30.000 euros líquidos, cobre-os cinco vezes: mesmo que um dos dois perca o emprego, provavelmente continuará a pagar. Se ganhar 9.000, cobre-os uma vez e meia, e qualquer imprevisto a deixa em apuros. Com uma empresa passa-se o mesmo, com uma diferença: se deixar de pagar, os credores podem ficar com o negócio.

Porquê o EBIT e não o resultado líquido? Porque os juros pagam-se antes dos impostos e dos acionistas: o EBIT é o dinheiro disponível para eles. Há variantes. Com o EBITDA em vez do EBIT, a cobertura sai mais alta, porque não subtrai as amortizações e depreciações, que em empresas com muitas instalações são um custo real de as repor. Com os juros líquidos (subtraindo os juros que a empresa recebe pela sua caixa), sai mais alta nas empresas com muita liquidez. A Kaplio usa a definição clássica: resultado operacional dividido pelos gastos com juros.

A cobertura olha para a dívida a partir da demonstração de resultados. A dívida líquida e o rácio dívida/capital próprio olham para ela a partir do balanço. São precisas as duas vistas: uma empresa pode dever muito a taxas muito baixas e cobrir os juros com folga, até ter de refinanciar.

As fasquias da Kaplio
A ficha da Kaplio aplica dois limiares. Nas elétricas e outras utilities: «saudável acima de 3×», com o aviso de que, «se cair abaixo de 3x numa subida de juros, o dividendo fica em risco». Nas empresas sem métricas setoriais próprias: «saudável acima de 5×», porque abaixo de 3× é «perigo em recessão». A diferença faz sentido: uma elétrica regulada cobra tarifas estáveis, que o regulador fixa tendo em conta os seus custos de financiamento; uma empresa cíclica pode ver o EBIT cair para metade num mau ano.

Fórmula

Cobertura de juros = EBIT / Gastos com juros
EBIT = resultado operacional da demonstração de resultados
Gastos com juros = juros da dívida do exercício («Interest expense» no 10-K)
Variante com EBITDA = EBITDA / Gastos com juros (dá sempre um valor mais alto)

Exemplo

A tabela abaixo compara quatro grandes elétricas dos Estados Unidos com os dados da Kaplio. Prepare-se para uma surpresa: com as contas de 2025, as quatro ficam entre 2,2 e 2,6 vezes, abaixo dos 3× que a ficha exige a uma elétrica. A tabela usa os últimos doze meses e pode dar décimas diferentes, mas o retrato é o mesmo: o setor vive com coberturas apertadas depois de anos a pedir emprestado para renovar redes e centrais.

Passo a passo: Duke Energy, 2025 (valores do relatório anual 10-K, em milhões de dólares):
1. Resultado operacional (EBIT): 8.626.
2. Gastos com juros: 3.634.
3. Cobertura: 8.626 / 3.634 = 2,37 vezes.
4. Vencimentos: 7.123 milhões da dívida de longo prazo vencem em 2026, 8,2% dos 87.212 milhões que tinha no fecho de 2025.
5. Teste de esforço: se refinanciar esses 7.123 milhões a uma taxa um ponto percentual mais alta, o gasto anual sobe cerca de 71 milhões e a cobertura desce para 8.626 / 3.705 = 2,33 vezes. Pouca coisa num ano; muito se se repetir com toda a dívida ao longo de uma década.

Agora é a sua vez. Contas de 2025 (10-K, milhões de dólares):
Southern Company: EBIT de 7.285 e juros de 3.238. Cobertura = ___ vezes. Pista: entre 2,2 e 2,3.
Dominion Energy: EBIT de 4.414 e juros de 2.022. Cobertura = ___ vezes. Pista: um pouco menos do que a da Southern.

Antes de espreitar: se uma elétrica tiver uma cobertura de 3,3 vezes, acima da fasquia da Kaplio, isso afasta uma falência nos dois anos seguintes? A resposta está no caso real.

Exemplo com dados reais

Cobertura de juros · Dados em
EmpresaTickerCobertura de juros
Duke Energy CorporationDUK2,4
The Southern CompanySO2,2
Dominion Energy, Inc.D2,2
American Electric Power Company, Inc.AEP2,9

Como interpretar

Como se interpreta
As duas fasquias da Kaplio estão na tabela. Os restantes intervalos são indicativos, apoiados na tabela que Aswath Damodaran, professor na Universidade de Nova Iorque, publica para atribuir um rating sintético a grandes empresas não financeiras em função da sua cobertura (dados de janeiro de 2026).

CoberturaLeituraRating sintético (Damodaran)
mais de 8,5×Muito folgadaAAA
5-8,5×Confortável: a fasquia geral da Kaplio é «saudável acima de 5×»A a AA
3-5×Aceitável em negócios estáveis: nas utilities a Kaplio exige «saudável acima de 3×»A− e A
1,5-3×Apertada: um mau ano ou uma subida das taxas de juro põem-na em riscoB a BBB
menos de 1,5×PerigoB− ou pior

O setor conta. As operadoras de telecomunicações ficam a meio: a Verizon cobriu os juros 4,4 vezes em 2025 (29.259 milhões de EBIT face a 6.694 de juros) e a AT&T, 3,6 vezes (24.162 face a 6.804). As elétricas vivem mais abaixo porque as suas receitas são reguladas; com a tabela de Damodaran, pensada para empresas em geral, a Duke ficaria em BB+. Numa empresa cíclica, olhe para a cobertura do pior ano do ciclo, não para a do melhor.

Armadilhas e limites
1. As taxas de ontem. Os gastos com juros refletem o que a empresa acordou quando se endividou. Se uma parte da dívida tem taxa variável, a subida das taxas chega às contas em poucos meses; se tem taxa fixa, chega quando vence e é preciso refinanciar. Procure no anexo às contas que parte é variável.

2. Os vencimentos. A cobertura não diz quando é preciso devolver o capital. Uma empresa com 3 vezes e metade da dívida a vencer em dois anos está mais exposta do que outra com 2 vezes e vencimentos repartidos por vinte. O 10-K traz o mapa de vencimentos por ano: a Duke tem de devolver 7.123 milhões em 2026.

3. Os juros que não se veem. As elétricas capitalizam parte dos juros das obras em curso: somam-nos ao custo da central em vez de os levar a gasto. A Duke capitalizou assim 182 milhões em 2025. Os gastos com juros da demonstração de resultados ficam aquém do que realmente paga.

4. O EBITDA embeleza. Se lhe derem uma cobertura sobre o EBITDA, recalcule-a sobre o EBIT. Numa operadora de telecomunicações ou numa elétrica, a diferença pode ser enorme.

5. O que não está na demonstração de resultados. A cobertura mede se o negócio normal paga os juros. Não vê litígios, coimas nem passivos ainda não registados. Foi exatamente o que aconteceu no caso real.

Caso real: PG&E, cobertura aceitável e falência
A PG&E cobriu os juros 2,5 vezes em 2016 (2.080 milhões de EBIT face a 829 milhões de juros) e 3,3 vezes em 2017 (2.905 face a 888). No fecho de 2017 tinha 449 milhões de caixa. Nada nesses números gritava perigo iminente: é o retrato de uma elétrica normal.

O problema estava fora da demonstração de resultados. As suas redes foram implicadas nos incêndios florestais do norte da Califórnia de 2017 e no incêndio Camp, de novembro de 2018. No 10-K de 2018 registou encargos de 14.000 milhões de dólares por esses incêndios, compensados em parte por 2.200 milhões de seguros, e fechou o ano com um prejuízo operacional de 9.700 milhões. A 29 de janeiro de 2019, a PG&E e a sua filial elétrica recorreram ao capítulo 11, segundo o 8-K desse dia.

E a regra também se quebra pelo outro lado: a Duke, a Southern ou a Dominion vivem há anos com coberturas abaixo de 3 vezes sem deixarem de pagar. A cobertura é um termómetro, não um diagnóstico. Use-a em conjunto com a dívida líquida, os vencimentos e a leitura dos riscos do 10-K, e desconfie de qualquer número que lhe dê tranquilidade sem ter lido essa secção.

Pratique na Kaplio

Veja a cobertura de juros da Duke Energy

Perguntas frequentes

O que é a cobertura de juros?

É um indicador de solvência que mede quantas vezes o resultado operacional de uma empresa cobre os juros da sua dívida num ano. Quanto mais alta, mais margem tem a empresa para aguentar uma queda dos resultados ou uma subida das taxas de juro. A Duke Energy cobriu os juros 2,37 vezes em 2025.

Como calcular a cobertura de juros?

Cobertura de juros = EBIT / gastos com juros. O EBIT é o resultado operacional, antes de juros e impostos, e os gastos com juros saem da demonstração de resultados do mesmo exercício. Se o EBIT for de 8.000 milhões e os juros de 2.000 milhões, a cobertura é de 4 vezes.

Como se interpreta a cobertura de juros?

Quanto mais alta, mais folga. Para uma empresa sem métricas setoriais próprias, a Kaplio considera saudável acima de 5 vezes; nas elétricas e outras utilities, com receitas reguladas, acima de 3 vezes. Abaixo de 1,5 vezes é sinal de perigo. E nunca se lê sozinha: os vencimentos e as taxas variáveis contam tanto como o rácio.

Pode calcular-se a cobertura de juros com o EBITDA?

Pode, e alguns bancos fazem-no nos contratos de empréstimo, mas o valor sai mais alto porque não subtrai as amortizações e depreciações. Em empresas com muitas instalações, como operadoras de telecomunicações ou elétricas, a diferença é grande e as depreciações são um custo real de repor ativos. Para analisar, use o EBIT e deixe o EBITDA como dado complementar.

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Fontes

Conteúdo educativo. Não é uma recomendação de investimento.